lunes, 17 de junio de 2013

Transporte publico em Madrid

Por conta dos últimos acontecimentos na cidade de São Paulo, quis escrever nessa semana sobre como aumentou a tarifa do transporte público na região de Madrid, e como os políticos escondem o processo (artigo do jornal El Pais de 1 de fevereiro, quando aconteceu o 3º aumento tarifário):

As contas e as palavras não concordam.

Uma coisa são os números e outra são as palavras dos políticos. As contas demostram que Madrid espera coletar mais dinheiro do transporte público (Metro, ônibus urbanos (EMT) e interurbanos, e trens interurbanos (Cercanias)) embora o número de usuários continue decrescendo a cada ano, desde a crise iniciada em 2008. Concretamente, o governo regional espera perder quase 93 milhões de viagens e ganhar uns 88 milhões de euros a mais, de acordo com as contas de pressuposto do Consorcio Regional de Transporte de 2013. Isso implica subir 10% o valor das tarifas, segundo estimações de CCOO (Comissiones Obreiras; junto com UGT (União Geral de Trabalhadores), o principal sindicato na Espanha).
O conselheiro da Presidência de Madrid, ao ser preguntado sobre o aumento da tarifa, disse que "o aumento médio aplicado corresponde ao IPC*" (2,9% a mais no índice de preços ao consumo). O conselheiro se esqueceu que, enquanto os preços dos alimentos e outros bens cresceram, os salários não acompanharam o mesmo ritmo. Assim, a cada novo aumento tarifário emergem novas dificuldades aos usuários do serviço. O aumento salarial foi de 1,26% em 2012 segundo as estimativas do Instituto nacional de Estadística (INE). A porcentagem seria menor se o estudo levasse em conta os funcionários com salário congelado e corte do décimo terceiro. 
Madrid perderá por volta de 93 milhões de viagens até chegar a 1497 milhões. Assim o recolhe o projeto de pressupostos do Consorcio Regional de Transportes de Madrid, organismo gestor da política tarifária na região, financiado principalmente pelo governo regional. O número de passageiros será reduzido a 5,8% mas a arrecadação subirá em 8,7% totalizando 1103 milhões de euros. As CCOO calculam que isso corresponde a um aumento das tarifas próximo a 10% no período de um ano. Ou seja, se em fevereiro houve um aumento de 3%, restam mais 7%. "O Governo regional vai aproveitar qualquer desculpa ao longo do ano para impor o aumento. Ainda não teve chance, mas com certeza terá no futuro".
Em 2012 os preços subiram duas vezes. Em maio foi de 11%, o maior incremento percentual em uma década. Em setembro, com o aumento do IVA (correspondente ao IPI, ICMS e ISS no Brasil), as tarifas subiram mais 2%. O último aumento tarifário do transporte público foi em 1 de fevereiro, com uma média de 3% do aumento do valor dos bilhetes, concentrado, principalmente, nos abonos mensais dos quais se utilizam os usuários mais fiéis e mais numerosos, representando 67% dos usuários do transporte público, uma média de 4,6%. Isto é, Madrid teve 3 aumentos em 9 meses, dificultando, ainda mais com a crise, a mobilidade urbana e o sistema público de transporte.
O Conselheiro de Transportes declarou em 20 de dezembro: "Há duas maneiras de arrecadar mais dinheiro enquanto as viagens diminuem, uma fácil e outra difícil. A fácil é subir as tarifas e a difícil é melhorar a gestão pela via de novos ingressos e a redução de custos. Nosso governo optou pela segunda opção". Em 9 de janeiro, repetiu sua ideia nas obras de Metrô. "O aumento das tarifas não é um tema que está sendo debatido agora em nosso governo". Duas semanas depois, os novos preços foram aprovados.
*Índice de Preços ao Consumidor, é o índice que dá valor aos preços de um conjunto de produtos; normalmente, a cada ano o preço dos alimentos e outros bens sobem como consequência da inflação gerada pelo aumento da renda per capita da população (o dinheiro perde valor e, para manter o benefício da atividade comercial, os preços sobem)
Fonte: http://ccaa.elpais.com/ccaa/2013/02/01/madrid/1359749345_780155.html

jueves, 6 de junio de 2013

Transparência


Espanha é o único país da Europa com mais de um milhão de habitantes que ainda não garante o direito de acesso a informação pública. Segundo a informação divulgada pelo jornal El País, mesmo com a nova lei que está sendo debatida no Congresso nesses dias, a Espanha vai continuar atrasada em comparação a outros países democráticos.

"A lei não está a altura. O Executivo focou sua atenção no bom governo e esqueceu a transparência real. A lei deveria dar o direito a todas as pessoas de pedirem qualquer informação a qualquer Administração, em qualquer formato", confirma Victoria  Anderica, pesquisadora e coordenadora de Acces Info Europe.

O projeto de lei foi aprovado no Conselho de Ministros no dia 27 de julho do ano passado, após passar por um período de consulta pública. O texto fica agora nas Cortes para ser melhorado com as contribuições dos partidos políticos. É importante dizer, que semana passada, os principais partidos de Espanha e casualmente os mais ricos, os nacionalistas catalães Convergencia i Unio (CiU), os nacionalistas bascos Partido Nacionalista Vasco (PNV) e o principal partido opositor (PSOE) anularam suas contribuições anteriormente à apresentação de emendas no Congresso. Segundo os comentários de vários jornalistas, o Governo do PP poderia ter feito um pacto com esses partidos, para proteger os privilégios políticos, o que gerou reclamações dos partidos minoritários, UPyD (Unión, Progresso y Democracia) e IU (Izquierda Unida) e das organizações sociais que lutam contra a corrupção e pela transparência.

Coalizão pro Acesso, grupo onde participam organizações como Anistia Internacional, Ajuda em Ação, Associação de Imprensa, Greenpeace e Intermón Oxfám, temem que as principais formações políticas não prestem nenhuma atenção as contribuições enviadas durante o período de consulta publica.

Os pontos mais criticados da nova lei são:

1º. O direito a informação, um direito fundamental

O direito a informação aparece no texto relacionado ao artigo 105 da Constituição sob acesso a arquivos e registros. Embora a Coalizão pro Acesso considere que esse direito tem que ser um direito fundamental, e portanto, estar ligado ao artigo 20 da Constituição. Desse modo, a lei deveria se tramitar como lei orgânica e não como lei ordinária.

2º. A extensão da lei deve ser maior

O texto deixa os partidos políticos, sindicatos e a Casa Real fora do controle. A Coalizão critica duramente essa exclusão "É preciso observar as contas dos partidos e sindicatos. As formações recebem subvenções públicas, têm muitas dívidas e trocam favores. A lei de financiamento dos partidos políticos é claramente ineficaz (tendo em conta os últimos escândalos de corrupção) sendo preciso que a transparência chegue a essas entidades para que os cidadãos confiem de novo nelas".

3º. Problemas com a publicação de informação

Os informes finais das auditorias feitas pelos órgãos de controle interno não serão publicadas. Também não o patrimônio (prédios, terreiros, veículos...) que tem os 21.000 organismos públicos espanhóis, o que gera um menor controle das administrações publicas.
A Coalizão também não concorda com o portal de informação onde o Governo quer colocar a informação pública. Segundo os argumentos da organização, seria muito melhor imitar aos outros países com leis de transparência na Europa que colocam os dados na web de cada instituição correspondente, e não todos misturados no mesmo lugar.

4º. Mudar o silêncio administrativo negativo por um silêncio positivo

De acordo com a atual elaboração da lei, se acabar o prazo para contestar e a instituição não der uma resposta, se entende que a solicitação do cidadão foi negada. Para a Coalizão, tendo em conta que na Espanha, mais do 50% das solicitações ficam sem resposta, estabelecer um silêncio negativo teria consequências negativas. Portanto, pedem uma resposta da Administração, independente de a solicitação ter sido aceita ou negada. Um silêncio positivo que lute contra a preguiça da Administração.

martes, 14 de mayo de 2013

Aforamento



O conjunto de privilégios judiciais que gozam nossos parlamentares espanhóis (nacionais e regionais) e outros altos cargos é imenso: inviolabilidade, imunidade... mas o caso mais singular e escandaloso é: o aforamento.

O aforamento implica alterar as regras de competência judicial penal (objetiva, funcional e territorial) em beneficio de determinadas pessoas. Na Espanha, o número de pessoas acolhidas a esses privilégios fica perto das 10.000, como mínimo.

O aforamento normalmente permite escolher o instrutor judicial pelo órgão que realizará o julgamento. Isso significa que assim que o Juiz de Instrução que está pesquisando um crime tiver conhecimento de que a pessoa é "protegida" pelo aforamento, deverá passar o caso a outro órgão judicial competente, perdendo assim o caso, mesmo existam outras pessoas na pesquisa que não são aforadas. De ai que normalmente um juiz que leva muito tempo fazendo pesquisa de algum crime (narcotráfico, estafa, etc) não queira imputar a nenhuma pessoa aforada mesmo seja descoberta envolvida no crime, para não perder a labor que fez anteriormente com os outros suspeitos.

Outra consequência é que as pessoas não aforadas levadas a um tribunal superior (por haver um membro envolvido no caso que é aforado) perdem seu direito a revisão de seu caso numa segunda instância se a sentença é condenatória. Uma clara discriminação frente ao resto da população.

O Conselho Geral do Poder Judicial, formado pelos grandes partidos políticos (PP e PSOE maioritariamente) são os que nomeiam os magistrados dos Tribunais Superiores (TS e TSJ). Assim, de maneira indireta, os políticos escolhem ou influem claramente na eleição dos juízes que vai lhes imputar e julgar caso de algum crime cometido. Para o político, o aforamento é um privilegio, entanto que para o resto de imputados implica uma perda de garantias. Os poderes legislativos e judiciais não são independentes como a sociedade demanda nos tempos recentes.

Igual ao futebol, somos campeões do mundo. Ganhamos de Portugal e da Itália por 10.000 a um em número de cargos aforados. Eles só têm ao Presidente da República como cargo aforado. Ganhamos da França por 10.000 a 10 (eles têm aforados o Presidente da República, o Primeiro Ministro e seus Ministros). E na final, a Alemanha, ganhamos de 10.000 a 0. Ela não tem nenhum aforamento. Em seu caso, o deputado será acusado e julgado pelo órgão judicial competente segundo as regras gerais a todos os cidadãos. Também ganhamos aos EUA e Reino Unido.

lunes, 29 de abril de 2013

25A: Cerco ao Congresso


Nesta quinta-feira aconteceu em Madrid mais um protesto cidadão contra as politicas do Governo e o sistema econômico atual. Foi combinado nas portas do Congresso, igual ao protesto ocorrido no dia 25 de Setembro ("Rodea el Congreso 25-S"). Mas, diferente daquela vez e das anteriores manifestações, o número de assistentes e grupos sociais que acudiram foi muito reduzido e o protesto teve pouca repercussão midiática, a exceção dos feridos, detenções e das imagens de violência dos manifestantes e dos policiais (1).

Por que desta vez o protesto não foi apoiado pelo povo? Será que os espanhóis perderam a vontade de continuar a luta contra a corrupção, a pobreza e o enriquecimento das elites durante a crise? Será que já não temos expectativas de mudar as coisas? O protesto foi planejado para começar às 17h da tarde e continuar indefinidamente até a "liberação do Congresso e o início de uma nova transição política", mas começou duas horas mais tarde pela falta de público e foi cancelado às 22h pela mesma organização que chamou o protesto de causa da "falta de forças suficientes e pelo insuficiente apoio social".

Minha resposta é: para que o povo lute, precisa entender e compartilhar os motivos e modos de luta propostos. Os motivos são claramente entendidos e compartilhados, de ai que todas as semanas qualquer turista assista com surpresa a manifestações nas ruas de Madrid. Mas os modos de luta propostos para a última manifestação não são compartilhados pela maioria de nós.

Foi o grupo Plataforma En Pie quem fez a convocatória e deu o nome do protesto: Cerco ao Congresso. Na convocatória, e no blog deles, pode-se perceber que a forma de entender a luta cidadã é totalmente diferente aos demais grupos sociais que dirigiram os protestos nos últimos anos (15M, Democracia Real Ya!, Jovenes sin futuro, PAH, etc). Eles acham que o protesto pacífico não é o único jeito de fazer reclamo e mudar as coisas. Apoiam o uso da defesa ativa (reagir com violência cidadã a violência policial/estatal). Ela foi a causa da falta do apoio social (2).

(abaixo, tradução de parte da convocatória do protesto feita pela Plataforma En Pie (3))

"Ação principal: assédio e liberação definitiva do Congresso dos Deputados.
Ações secundarias: ações livres de dispersão que afetem ao poder estabelecido (sempre dentro do marco dos direitos humanos).
Objetivo: A caída do regime (renuncia do Governo, dissolução das Cortes e do Chefe do Estado), e abertura a um processo de transição a um novo modelo de organização política, econômica e social, verdadeiramente justo e solidário."

(mais um texto do blog Plataforma en Pie em 7 de Dezembro de 2012, após o protesto do 25S em frente as portas do Congresso (4))

"Ocupa, queima, assedia... que o chame como quiserem, o Congresso será para o povo ou não será.
A água só queima a 100ºC, esquentar só até 99ºC não serve, nos preparemos e quando for o momento o poremos em 100% da nossa coragem, da nossa raiva, da nossa força..."


Claramente, as atitudes desse grupo são mais... ativas do que simplesmente gritar nas ruas, apontar as culpáveis do nosso empobrecimento, proporcionar alternativas, e esperar as próximas eleições.
Eles querem a mudança agora, e como eles quiserem.

A história de povo espanhol está cheia de conflitos e violência. Golpes de estado militares, rebeliões populares, assassinatos religiosos, radicalização dos movimentos sociais, repressão... Afortunadamente, os tempos mudaram (um pouco só) e a maior parte dos que hoje ficamos nas ruas fazendo protesto, é pacífica (não quer dizer pacifistas). Entendemos que não é momento nem o lugar de nos voltar violentos. Ainda não. A imposição, de um lado ou do outro, só gera mais sofrimento. Temos presente a necessidade de mudar as coisas, mas não queremos acelerar as mudanças de esse jeito.

Embora a chamada a violência nessa quinta não foi seguida pelo povo, dá medo. Foi a primeira vez que aconteceu uma chamada daquele tipo desde que começou a crise e as manifestações (até agora só a policia e alguns radicais foram violentos), mais acho que não será a ultima: o povo está sofrendo muito ao mesmo tempo em que os casos de corrupção e desigualdade crescem; os políticos não estão atendendo aos protestos pacíficos e, além disso, mandam a policia reprimi-los duramente... tudo isso pode levar as coisas a voltarem mais radicais e violentas nos próximos tempos.

miércoles, 17 de abril de 2013

Republica da Espanha

A Espanha não foi sempre uma monarquia, existiram duas Repúblicas anteriormente. No domingo passado, 14 de abril, comemorou-se o começo da Segunda República. Mas nós não só fizemos lembrança e entendimento do nosso sistema politico atual, também foi um dia de protesto contra um rei ilegítimo, posto pelo ditador Franco, e pelos últimos escândalos de corrupção da família real.


Um pouco de historia

Em 10 de fevereiro de 1873, o rei Amadeo I renunciou ao trono, motivado pelas dificuldades enfrentadas em seu curto reinado, como a guerra em Cuba contra os EUA, o surto da Terceira Guerra Carlista (1872-1876, entre os partidários do duque de Madrid, Don Carlos, para o reinado, contra o governo do rei Amadeo I, depois contra o governo da I República, e finalmente contra o governo do rei Alfonso XII) a oposição dos monárquicos alfonsinos (partidários dos quais o rei fora procedente da família borbónica, Alfonso XII), as diversas insurreições republicanas, e a divisão ideológica entre seus próprios partidários. Além disso, o apoio popular era praticamente nulo.

A Primeira República Espanhola foi proclamada pelas Cortes em 11 de fevereiro de1873. Foi a primeira chance republicana da nossa história, caraterizada pela sua instabilidade política: em seus primeiros onze meses foram 4 presidentes, todos eles do mesmo partido político, até que o golpe de estado do General Pavía em 1874 acabou com ela, passando à ditadura do General Serrano, líder do partido conservador, Partido Constitucional. Sua ditadura republicana terminou nesse mesmo ano após outro levantamento militar, do General Martínez-Campos, quem deu o poder ao rei Alfonso XII, restabelecendo a monarquia borbónica. Lá começou o período conhecido como Restauração Borbónica, significava a retomada do poder pela família real dos Borbones (procedente da França).

No último período da Restauração Borbónica aconteceu a ditadura do General Primo de Rivera, de 1923 até 1930. Quando acabou, o rei Alfonso XIII (alvo do atual rei Juan Carlos I) colocou o General Berenguer como presidente-ditador, na conhecida como Ditablanda (uma ditadura mais branda que as anteriores). Os esforços pelo progresso econômico e das infraestruturas, não vigorou e, no final desse período instalou-se uma crise política que desprestigiou Alfonso XIII e favoreceu as eleições locais e regionais, fazendo com que os partidos escolhidos fossem, em sua maioria, republicanos.

A Segunda República Espanhola foi proclamada um ano mais tarde, em 14 de abril de 1931, durando até 1936, quando as forças militares se revelaram. Durante os 3 anos seguintes, passou-se a Guerra Civil, na qual as forças militares venceram as milícias populares republicanas, com o apoio dos governos fascistas de Hitler e Mussolini.

Em 1939 estabeleceu-se a ditadura fascista do General Franco, até 1975, ano de sua morte (35 anos), baseada na ideologia fascista de José Antonio Primo de Rivera, filho do ditador Primo de Rivera, executado durante a II República, e venerado depois com a ditadura de Franco. Anteriormente a sua morte, Franco já tinha previsto que Juan Carlos I (neto do último rei Alfonso XIII) fosse o seu sucessor, saltando ao pai dele Juan de Borbon (primogênito de Alfonso XIII) que não se saiu bem com o ditador. Isso provocou uma pequena crise entre pai e filho, mas quando chegou à democracia, e percebendo a impossibilidade de obter o trono, Juan de Borbon reconheceu oficialmente seu filho Juan Carlos I como rei “legítimo” da Espanha.

Como vocês podem ver, nossa história está cheia de conflitos e golpes militares. De fato, hoje temos monarquia em vez de uma república, graças ao nosso "querido" General Franco. O povo já havia votado o contrario.

“Mas vocês, espanhóis, se não querem rei, por que não aproveitaram quando a democracia chegou?” Fácil resposta: quando Franco morreu, o sistema político do país sofreu uma pequena crise na qual o rei foi uma figura determinante. Quer dizer, mesmo o povo estando preparado e apoiando um sistema democrático, o poder ainda se concentrava nas mãos dos militares. A permanência do rei como chefe de Estado e das forças armadas, Juan Carlos I, foi o preço a pagar aos militares e partidos conservadores para conseguir a democracia. Aliás, Juan Carlos I até promoveu a Transição Democrática e rejeitou o novo golpe militar do General Tejero em 1981 (é lógico pensar que voltar a um modelo militar talvez pudesse eliminar os privilégios que tinha ganhado com a democracia).

jueves, 28 de marzo de 2013

Banco Central Europeu (BCE)


Quando uma família quer comprar uma moradia, ou uma empresa quer expandir seu negocio, ou o Estado quer investir em educação, por exemplo, eles tem que pedir dinheiro, e todos eles desejam que o empréstimo seja a juros mais baixos possíveis. Por outro lado, os credores (os bancos geralmente) desejam que os juros sejam mais elevados possíveis. Existe aí um conflito entre credores (bancos) e devedores (cliente). É daí que todas as sociedades criaram entidades públicas que garantiram a existência do crédito (capacidade para conseguir dinheiro), para responder às necessidades da cidadania e à economia. Elas são os Bancos Centrais, e são precedidos por grandes movimentos sociais que exigiram esses estabelecimentos. Assim, nos EUA, em 1913 foi criado o Banco Central dos EUA, o Federal Reserve Board (FRB), para garantir a existência de crédito.
Desde o começo, ele foi sujeito ao conflito de interesses entre os bancos, que queriam minimizar a circulação de dinheiro para reduzir as probabilidades de inflação (baixo preço do dinheiro) e assim o dinheiro tivesse um valor alto (juros se elevassem). Os usuários (trabalhadores e demais) queriam o contrário: maior circulação do dinheiro, para que assim fosse mais fácil obter crédito. Até a chegada de Roosevelt (o mais popular presidente dos EUA), o FRB era composto principalmente por bancos, e só se preocupava com os níveis de inflação. Nesse momento, Roosevelt estabeleceu o New Deal e muitas outras reformas, mudando a estrutura e os objetivos do FRB: a disponibilidade de crédito era prioritária sobre o controle da inflação. Essas foram as bases da saída da Grande Depressão. Por lei, o FRB deve exercer as duas funções: estimular o crescimento econômico (facilitando o crédito) e controlar a inflação.
Embora a saída da Grande Depressão tenha feito voltar o controle do FRB aos bancos - causa das novas crises que se seguiram - os EUA conseguem recuperar sua economia mais rápido que a Europa, por conta da função do FRB de priorizar a disponibilidade de crédito frente ao controle da inflação. Não acontece assim em nosso continente europeu, onde o Banco Central Europeu (BCE) tem como missão apenas controlar a inflação. Essa é a causa do forte domínio do Banco Central Alemão (o Bundesbank) sobre o BCE. O Bundesbank é conhecido por sua obsessão pela inflação, sem ter interesse na produção do emprego mediante a facilitação de crédito.
Esse objetivo de controlar a inflação é compartilhado pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (1997) e agora pelo Pacto Fiscal, que obriga os estados a manter um déficit público menor que 3% e maior que 0,5% do PIB. A palavra "Crescimento" só foi somada pela pressão francesa do governo socialista do Sr. Jospin, mas não significa nada, porque o Pacto não foi dotado nem de fundos nem de mecanismos para estimular a economia e gerar emprego, repetindo a situação com o atual Pacto Fiscal que após a pressão francesa do atual presidente Sr. Hollande, o nome oficial é Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança na UE, também sem mecanismos para favorecer o crédito. O grande poder dos bancos na Europa, maior que nos EUA, explica porque ninguém fica preocupado por criação de emprego no BCE.
É muito improvável que possa voltar a economia da Eurozona (particularmente a economia dos países da periferia como Espanha, Portugal, Itália, Grécia, e Irlanda) sem uma mudança profunda parecida com a do FRB no BCE. Nem é preciso dizer que o FRB também tem doenças que precisam ser curadas, como bem fala a esquerda americana, mas neste momento, ele está servindo melhor aos cidadãos americanos do que faz o BCE aos europeus.

domingo, 17 de marzo de 2013

Divida pública


Nos encontros com a presidente alemã Angela Merkel, o presidente espanhol Mariano Rajoy sempre fala que o objetivo principal de seu governo é minimizar o deficit publico e dirigir todas as suas políticas públicas para conseguir esse objetivo. Assim, se aceita que o maior problema da economia espanhola é a divida do Estado espanhol (divida do governo central, autonômico, ou municipal), opinião compartilhada pelo anterior presidente Jose Luis R. Zapatero. Sua referencia constante: "Espanha não pode gastar mais do que tem".

No entanto, os dados não apoiam essa tese: se o déficit e a divida pública fossem protagonistas da crise econômica na Espanha, eles deveriam de ter sido muito altos quando começou a crise, em 2007. Mas olhando para trás, os dados não são assim: quando a crise começou em 2007, o Estado tinha um superavit do 1,9% do PIB (6 vezes maior que a economia alemã, 0,3% do PIB) e uma divida publica do 23% (a metade da divida publica alemã, 50% do PIB, e muito mais abaixo dos limites acordados no Tratado de Maastricht que obriga aos estados membros da UE a ter uma divida limite do 60% do PIB). Portanto, não é certo que a crise fosse causa de um gasto maior aos ingressos. O gasto publico não foi o problema, o déficit e a divida publica não eram altas.

O crescimento do déficit foi causado pela diminuição dos ingressos, resultado da recessão e do desemprego, prejudicando ao mesmo tempo os recortes sociais do Governo e no gasto publico (a Espanha durante a crise teve a taxa de crescimento do desemprego mais elevada da OCDE depois de EUA e Irlanda).

Ter um superavit muito maior e uma divida publica muito menor que Alemanha não nos protegeu da crise. Então, como pode se expandir a ideia que a maior causa da crise é o elevado deficit e a divida publica, quando o período que eles eram baixos não evitou os 6 milhões de desempregados que a Espanha tem agora?

O deficit publico dos EUA em 2010 foi 10,6% do PIB, maior que a media dos países da Eurozona (6%). E dentro dos EUA há um estado, California, que tem um divida publica (em términos absolutos e proporcionais) maior que a divida da Grécia o qualquer outro pais do sul da Europa. Mesmo assim, o dólar é mais estável que o euro e não é sujeito de campanhas especulativas como está acontecendo agora com o euro. O fato de que isso não aconteça não é devido a causas econômicas, nem causa financeiras. É devido exclusivamente a causas politicas. Não há que confundir os sintomas com as causas da doença.

O problema da falta de estabilidade do euro ocorre porque não há um estado que dê apoio frente aos ataques especulativos. O dólar, no entanto, tem um estado federal que o apoia (apoiando também a California agora). Que isso não ocorra na Eurozona (e na UE) é devido ao excessivo poder dos bancos nos países da UE-15 (os 15 países mais desenvolvidos da UE), a cumplicidade com as grandes corporações transnacionais, assim como as elites de cada pais. Hoje estamos vivendo a aplicação de politicas de claro corte neoliberal (desregulação dos mercados laborais, redução da proteção social publica...) que fomenta aquele modelo beneficioso para poucos.

A evidencia desse processo atual na Espanha é que os países fortes da UE e as nossas elites (bancos e grandes empresas), apoiam os recortes em gasto publico como medida para sair da crise, mesmo que a divida privada seja muito maior que a publica (4 vezes maior em 2012). Por que, então, essa vontade em reduzir a divida publica?
Informação procedente de: http://www.vnavarro.org