lunes, 29 de abril de 2013

25A: Cerco ao Congresso


Nesta quinta-feira aconteceu em Madrid mais um protesto cidadão contra as politicas do Governo e o sistema econômico atual. Foi combinado nas portas do Congresso, igual ao protesto ocorrido no dia 25 de Setembro ("Rodea el Congreso 25-S"). Mas, diferente daquela vez e das anteriores manifestações, o número de assistentes e grupos sociais que acudiram foi muito reduzido e o protesto teve pouca repercussão midiática, a exceção dos feridos, detenções e das imagens de violência dos manifestantes e dos policiais (1).

Por que desta vez o protesto não foi apoiado pelo povo? Será que os espanhóis perderam a vontade de continuar a luta contra a corrupção, a pobreza e o enriquecimento das elites durante a crise? Será que já não temos expectativas de mudar as coisas? O protesto foi planejado para começar às 17h da tarde e continuar indefinidamente até a "liberação do Congresso e o início de uma nova transição política", mas começou duas horas mais tarde pela falta de público e foi cancelado às 22h pela mesma organização que chamou o protesto de causa da "falta de forças suficientes e pelo insuficiente apoio social".

Minha resposta é: para que o povo lute, precisa entender e compartilhar os motivos e modos de luta propostos. Os motivos são claramente entendidos e compartilhados, de ai que todas as semanas qualquer turista assista com surpresa a manifestações nas ruas de Madrid. Mas os modos de luta propostos para a última manifestação não são compartilhados pela maioria de nós.

Foi o grupo Plataforma En Pie quem fez a convocatória e deu o nome do protesto: Cerco ao Congresso. Na convocatória, e no blog deles, pode-se perceber que a forma de entender a luta cidadã é totalmente diferente aos demais grupos sociais que dirigiram os protestos nos últimos anos (15M, Democracia Real Ya!, Jovenes sin futuro, PAH, etc). Eles acham que o protesto pacífico não é o único jeito de fazer reclamo e mudar as coisas. Apoiam o uso da defesa ativa (reagir com violência cidadã a violência policial/estatal). Ela foi a causa da falta do apoio social (2).

(abaixo, tradução de parte da convocatória do protesto feita pela Plataforma En Pie (3))

"Ação principal: assédio e liberação definitiva do Congresso dos Deputados.
Ações secundarias: ações livres de dispersão que afetem ao poder estabelecido (sempre dentro do marco dos direitos humanos).
Objetivo: A caída do regime (renuncia do Governo, dissolução das Cortes e do Chefe do Estado), e abertura a um processo de transição a um novo modelo de organização política, econômica e social, verdadeiramente justo e solidário."

(mais um texto do blog Plataforma en Pie em 7 de Dezembro de 2012, após o protesto do 25S em frente as portas do Congresso (4))

"Ocupa, queima, assedia... que o chame como quiserem, o Congresso será para o povo ou não será.
A água só queima a 100ºC, esquentar só até 99ºC não serve, nos preparemos e quando for o momento o poremos em 100% da nossa coragem, da nossa raiva, da nossa força..."


Claramente, as atitudes desse grupo são mais... ativas do que simplesmente gritar nas ruas, apontar as culpáveis do nosso empobrecimento, proporcionar alternativas, e esperar as próximas eleições.
Eles querem a mudança agora, e como eles quiserem.

A história de povo espanhol está cheia de conflitos e violência. Golpes de estado militares, rebeliões populares, assassinatos religiosos, radicalização dos movimentos sociais, repressão... Afortunadamente, os tempos mudaram (um pouco só) e a maior parte dos que hoje ficamos nas ruas fazendo protesto, é pacífica (não quer dizer pacifistas). Entendemos que não é momento nem o lugar de nos voltar violentos. Ainda não. A imposição, de um lado ou do outro, só gera mais sofrimento. Temos presente a necessidade de mudar as coisas, mas não queremos acelerar as mudanças de esse jeito.

Embora a chamada a violência nessa quinta não foi seguida pelo povo, dá medo. Foi a primeira vez que aconteceu uma chamada daquele tipo desde que começou a crise e as manifestações (até agora só a policia e alguns radicais foram violentos), mais acho que não será a ultima: o povo está sofrendo muito ao mesmo tempo em que os casos de corrupção e desigualdade crescem; os políticos não estão atendendo aos protestos pacíficos e, além disso, mandam a policia reprimi-los duramente... tudo isso pode levar as coisas a voltarem mais radicais e violentas nos próximos tempos.

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