martes, 18 de diciembre de 2012



Sempre me foi difícil entender a tendência de alguns jornalistas e intelectuais a rejeitar em bloco as propostas de um líder político que não gostam, mesmo que alguma das suas propostas tenham boas razões. Assim aconteceu frequentemente durante o Governo do PSOE (Partido Socialista Obrero Espanhol) de Zapatero (ex-Presidente espanhol, anterior ao atual presidente Rajoy). Como muitos não gostavam da sua postura frente a ETA (grupo terrorista da região norte da Espanha), frente aos nacionalismos de certas regiões, e/ou sua persistente ignorância da crise econômica, rejeitavam com igual indiferença qualquer das suas medidas, por exemplo a nova matéria educativa que criou, Educação Para a Cidadania. De modo que era fácil olhar como alguns ateus reclamavam junto com os bispos frente a uma matéria tão lógica... só para aborrecer o presidente. Agora acontece algo parecido, embora o signo político seja o oposto, com as iniciativas que defende o ministro da educação, senhor Wert (Governo de Rajoy, PP, Partido Popular, partido político de direita). Como a grande parte das suas propostas de reforma educativa aponta claramente em favor da educação concertada (escola de gestão privada, mas paga com dinheiro público), aos centros que querem separar os sexos nas aulas e gostam de matérias de estudos com interesses eclesiásticos (suprimindo assim a "sofrida" Educação Para a Cidadania), quem não aceita tais medidas rejeita também o resto delas, incluindo a proteção do Espanhol como língua veicular lá onde atualmente não é respeitada (regiões com governos nacionalistas, que impõem as línguas regionais à comum).


Mas garantir o uso do espanhol como língua veicular do ensinamento junto com as outras línguas regionais oficiais (galego/gallego na Galiza/Galicia, catalá/catalán na Catalunya/Cataluña, euskera/vasco no Euskadi/País vasco, por exemplo) é algo perfeitamente adequado e que vem a cumprir - enfim!- as repetidas sentenças judiciais tanto do Tribunal Supremo como do Tribunal Constitucional. E, com certeza, não é de jeito nenhum uma medida da ultradireita, como alguns nacionalistas falam. Pelo contrario, foi Franco (o ditador militar fascista que governou a Espanha de 1940 até 1975, após uma guerra civil de 3 anos iniciada por ele e seu exército) quem obrigou o uso do Espanhol em exclusividade e eliminou o resto das línguas do país fora do sistema educativo em nome da coesão do território e para não dividir a comunidade. É o mesmo que hoje fala o Governo da Cataluña, nacionalista e oposto a que o Espanhol seja também língua veicular na Cataluña. A proposta de Wert, enquanto nos referimos ao Espanhol como língua veicular e não o resto de coisas, é um bom passo para corrigir esta exceção dentro da União Europeia: que exista um país, Espanha, onde seja praticamente impossível estudar na língua majoritária e oficial em zonas importantes do território nacional.


Em Cataluña os nacionalistas acostumam a falar coisas catastróficas e incríveis a respeito da sua relação com o Governo Espanhol. Assim, depois de denunciar a espoliação econômica do resto de Estado contra eles (mesmo que seja junto com Madrid a comunidade mais rica do país), agora proclama-se que a língua catalana está sendo atacada fortemente. De fato, nacionalistas de outras regiões (País Vasco, Galicia) se solidarizam com as "vítimas" de tão injusta perseguição. Surpreende assistir como aqueles protestos nacionalistas contra a língua espanhola tem semelhança com os protestos da Igreja contra a educação laica. Nacionalismos que, ao mesmo tempo, tem origem clerical:
Quando a Igreja perde exclusividade dos seus privilégios e baixa ao mesmo plano que outras crenças, rapidamente fala de terrível persecução contra ela. Os sacerdotes sempre consideram que é de justiça ter um trato favorecido, e que o caso contrário, só pode ser uma agressão. É o mesmo modo que tem os nacionalistas de ontem e hoje para se sentir atacados quando a sua língua recebe o mesmo trato que as demais, especialmente, se é a língua que se fala em todo o país e, portanto, vincula-se a ele. O único direito que ainda não conseguiram é o direito de proibir, mas isso lhes parece intolerável...


Os nacionalistas acham que são as línguas mesmas que têm direitos, e não seus falantes. Por tanto, gostam de repetir como um argumento que, no final do ensinamento obrigatório, os alunos, ainda que não tivessem estudado em Espanhol, acabam conhecendo a língua majoritária com tanta claridade quanto os alunos ensinados com ela. Isso não é tão certo, mas ok: por muito independente que seja a Irlanda, o gaélico nunca vai fazer os irlandeses esquecerem o Inglês (a comparação não é muito apropriada, porque o gaélico foi proibido durante mais de 100 anos, o catalan só durante a ditadura, mas é o caso mais perto). Mas o debate não é esse, o debate é o direito das pessoas que estudam em Cataluña, País Vasco ou qualquer outra região com governo nacionalista de poder se educar em Espanhol se assim quiser: não estamos questionando o conhecimento do Espanhol ao final dos seus estudos, estamos defendendo o direito a ter aulas nessa língua. É uma forma de laicismo linguístico, que como outros laicismos choca com os intransigentes que não aceitam ter um direito, querem mudá-lo em obrigação para o resto.

Texto de Fernando Savater, escritor, filosofo e político no partido UPyD

lunes, 29 de octubre de 2012

Eleições catalás e nacionalismo catalá

Em alguns meses teremos eleições na Cataluña (em português Catalunha, em catalá Catalunya).


Como muitos já sabem, a Espanha é dividida em 17 Comunidades Autônomas (CCAA) como Andalucía, Catalunha, Madrid, País Vasco (Euskadi em vasco)... e nelas, as diferentes províncias, que contêm as prefeituras/cidades respectivas. Por exemplo, e para continuar com o exemplo da Catalunha, ela é uma comunidade autônoma, com as províncias de Girona (Gerona em catalão), Lérida (Lleida em catalão), Barcelona e Tarragona.

Catalunha, junto com a comunidade autônoma do País Vasco, é famosa por sua tradição nacionalista que agora, no meio da crise econômica e perto das eleições autonômicas, expressa sua versão mais independentista.

Entendemos como nacionalismo aquela corrente ideológica que sobrevaloriza as coisas própias do território/sociedade frente as coisas de outros territórios/sociedades. Assim, o nacionalismo alemão da época nazi, achava superiores os alemães frente a outros cidadãos europeus; o nacionalismo espanhol da ditadura não permitia a expressão de outra cultura que não fosse a espanhola (limitada por seus critérios); e o nacionalismo chinês invadiu o Tibet em nome da união social chinesa.

Os políticos nacionalistas, sejam de onde sejam, são um tipo de masturbadores profissionais da sociedade, que conseguem expandir a ideia de que o cara de dentro faz o bem, o cara de fora, faz o mal. Exemplos de argumentos nacionalistas: "A divida do governo autonômico da Catalunha com a administração estatal não é culpa do malgasto de dinheiro da administração autonômica, é culpa do estado Espanhol que exige demais a sociedade catalã", "A crise não foi por culpa da corrupção e banca espanhola, foi culpa do capitalismo internacional"; "Os serviços públicos não conseguem responder a demanda pública porque há muitos imigrantes folgados". Assim, o cidadão acredita que ele não tem culpa dos problemas, ele é bom, e que a culpa é dos caras de fora. Que o politico nacionalista defendera seus interesses sem prejudicar seus privilégios, porque ele é de seu grupo (catalão/espanhol). Assim, todos estão felizes. Viva o nacionalismo-masturbador!!

No caso da Catalunha e do Pais Vasco, a corrente nacionalista não começou ontem, mas sim é claro que os políticos nacionalistas estão aproveitando a crise atual para convencer a população que a única via para sair da crise é a independência. Quer dizer, mais poder para eles é o mesmo para os cidadãos. Os outros argumentos das comunidades nacionalistas são:

-Econômicos: Na Espanha, as CCAA mais ricas pagam mais ao estado central que as CCAA mais pobres, com a intenção de igualar a condição e oportunidade das pessoas no pais inteiro (exemplo: Madrid, Catalunha pagam mais proporcionalmente que Extremadura ou Andalucía). Bom, o Pais Vasco (outra CCAA rica) não paga o mesmo que as demais CCAA ricas porque tem uma lei autonômica especial. A Catalunha quer o mesmo privilegio, especialmente agora que tem uma forte divida com a Administração estatal. Como não conseguiu, fala de injustiça da Administração estatal para com a Catalunha (com certeza sua divida não tem que ver com sua corrupção, malgasto em embaixadas no estrangeiro, ou salários maiores para os funcionários catalões... ironia) , e o partido que governa (maioritário) propõe a independência. Nao quer participar do esforço por gerar igualdade social na Espanha. Considera que isso perjudica aos catalaes (sem importar as demais CCAA) e nao por isso nao vale a pena.

-Culturais: Falam das diferenças culturais como argumento para se independizar (é bom saber que na Espanha existem tantas culturas como regiões, e isso não é um problema na nossa convivência). Mesmo assim, querem que seus traços culturais, como a língua, fiquem por cima dos que temos em comum (exemplo: as aulas sejam em catalão e não em espanhol, embora há crianças de outras CCAA).

-Históricas: são os argumentos que mais me doem. Dizem ser as maiores vitimas da Guerra Civil, ditadura, e outros acontecimentos terríveis da Espanha. Como se os resto das CCAA não tivessem vítimas e dores nesses conflitos. Falam da repressão cultural nos seus territórios na ditadura, sem falar do apoio econômico que tiveram cidades como Barcelona e Bilbao. No entanto o governo da ditadura esquecia das CCAA que hoje são as mais pobres, fazendo sua população migrar para territórios Catalães, Vascos ou Madrilenhos em busca de emprego. 


Eu sou madrilenho, espanhol, europeu, e acima de tudo, cidadão do mundo. Não escolhi onde nascer e, por isso, os argumentos nacionalistas me parecem absurdos. Acho bom que as pessoas defendam sua cultura e direitos, mas não quando o fim delas é ter privilégios sobre outros, como acontece na Espanha. Pessoalmente, me considero uma pessoa de esquerda, e por isso que o argumento nacionalista espanhol que ataca o nacionalismo vasco e catalão, chamando a união espanhola frente aos movimentos independentistas, me importam pouco.

Talvez seja o primeiro madrilenho a dizer isso, mas eu quero a Catalunha e o Pais Vasco independentes (quero dizer, se seus cidadãos quiserem, não quero nenhum tipo de limitação por parte do estado central). Não quero ter Comunidades Autônomas vizinhas que querem privilégios frente às demais CCAA. Para isso, melhor não ser parte do mesmo pais.

domingo, 7 de octubre de 2012

Protestos do 25, 26, e 29 de setembro





Depois das manifestações acontecidas nos dias 25, 26 e 29 de setembro são muitos os vídeos no youtube que alguém pode encontrar para assistir diretamente aos fatos nesses atos.

Para esclarecer um pouco o contexto dos protestos, é preciso falar que o primeiro deles, no dia 25, foi convocado pela plataforma cidadã Coordenadora 25S. Ela é um grupo surgido da plataforma 15M (outro dia falarei dela) para organizar essa manifestação. O objetivo era rodear o Congresso dos deputados nacionais, para pedir a demissão do presidente da Espanha, Mariano Rajoy, pelas medidas tomadas por seu Governo ante a crise. O proclamo foi "Toma el congreso". Esse proclamo foi logo aproveitado pelas forças policiais, jornalistas de direita, e políticos do PP (Partido Popular, o partido que Governa a nação, a região de Madrid, e a cidade de Madrid) para justificar as violentas cargas da polícia, em defesa do Congresso. Mesmo que a Coordenadora 25S tivesse falado que o objetivo não era tomar o congresso literalmente, o objetivo era dar um golpe moral ao governo, reunindo o povo na Praça Neptuno. A manifestação foi tudo bem no começo: ela havia sido liberada pelo Governo da cidade de Madrid até às 21h. Como em outras manifestações organizadas pela plataforma 15M, ou grupos derivados, a maior parte das pessoas reunidas lá foram pacíficas, diversas, e ativas. Mas nunca violentos. Embora, não era difícil perceber os pequenos grupos, geralmente de adolescentes ou pessoas jovens, com vontade de começar briga com a polícia. Mesmo assim, como falei, não aconteceu nenhum problema... até às 21h.






Nesse momento, a polícia começou a carga contra o pessoal reunido lá. Eles explicaram que a carga foi originada por um grupo de radicais, que tentaram saltar a barreira policial para chegar ao Congresso. Muitos manifestantes falam que nesse grupo havia policiais infiltrados que foram os causadores da briga com os policiais da barreira, com dois objetivos: mostrar uma imagem violenta do protesto (pacifica até esse momento), e iniciar a "limpeza" da rua por parte da polícia. Pessoalmente, acho que os dois argumentos são exagerados: certo que havia grupos de jovens violentos (talvez, um total de 80 pessoas, numa concentração de mais de 8000 pessoas) mas não acho que quiseram tomar o congresso, só queriam briga com a polícia. E também não acho que foram os policiais infiltrados os que iniciaram a briga. Nos vídeos que mostram o grupo violento em confronto com a polícia, é fácil perceber as pessoas com estética típica de grupos radicais (desculpem meus preconceitos, mas já tenho experiência em manifestações, e os radicais preservam a mesma estética), as bandeiras da CNT (sindicado anarquista na Espanha; bandeiras vermelhas e pretas, ou numa mesma bandeira, as duas cores) que sempre está envolvida em protestos violentos, e pessoas provocando a polícia e tirando-lhes objetos...

O ataque da polícia foi extremamente violenta. Não só queriam pegar os radicais, queriam "limpar" a praça e as ruas. Além da violência nas ruas perto do Congresso, chegaram inclusive até a estação ferroviária de Atocha, 500m mais abaixo da Praça Neptuno onde acontecia o protesto. Na FFCC de Atocha, podia-se perceber que a intenção deles já não era "restaurar a ordem e a paz nas ruas", lá o objetivo era agredir o pessoal e prender pessoas.




 Foi por tudo isso, que no dia seguinte foi convocado outro protesto, 26S, com os mesmos motivos que o anterior, somando-se a violência policial. Não tinha autorização nenhuma por parte do governo municipal, e havia menos pessoas que no dia anterior. Mas a Praça Neptuno ficou cheia, interrompendo o trânsito, mais uma vez. Tudo correu bem, desde o começo ao fim. Só quando a maior parte dos manifestantes foram embora, perto das 23h30, a polícia iniciou confronto contra um pequeno grupo às 00h. Ignoro os motivos. No sábado, de novo o povo voltou à Praça Neptuno, contra o Governo e a violência policial. Os dados falam que havia mais gente que no primeiro dia, no 25S. Na manifestação do 29S foi tudo bem, até as 23h, quando a polícia desferiu novo ataque, deixando as ruas cheias de feridos. Manifestantes e não manifestantes.




domingo, 30 de septiembre de 2012

Welcome to the jungle meu amigo

Protesto nas ruas de Madrid contra as medidas tomadas pelo Governo ante a crise, e contra a violência policial nas ultimas manifestações. 29-Sept-2012, Praça Neptuno, 20,37h. Agencia: EFE

Faz 1 ano que voltei do meu intercâmbio no Brasil, na Universidade de São Paulo e, desde então, venho pensando em fazer um blog onde possa treinar meu Português.

Ao mesmo tempo, na minha volta encontrei meu pais envolvido em numerosas lutas sociais, algumas que aproveitam a crise atual para reivindicar seus objetivos (de origem antiga), e outras, que foram iniciadas pelas medidas tomadas pelo governo frente à crise (de origens mais recentes).

Uma semana atrás, conheci um cara paulista interessado nos motivos dos protestos nas ruas, nas greves dos trabalhadores, no conflito político de algumas regiões com o estado central (Cataluña, País Vasco, as mais destacáveis), nos casos de corrupção e das más gestões econômicas na elite política e econômica espanhola, que provocam a ira dos manifestantes.

Achei, "olha, por que não faz um blog em Português onde fale da situação atual no seu país?". E aqui estou, começando um blog que espera potenciar a relação entre Espanha e o mundo lusófono, através do debate particular, dos fatos que acontecem na Espanha nesse período de crise.

Espero seja de seu agrado,

Bastón