Nesta
quinta-feira aconteceu em Madrid mais um protesto cidadão contra as politicas
do Governo e o sistema econômico atual. Foi combinado nas portas do Congresso,
igual ao protesto ocorrido no dia 25 de Setembro ("Rodea el Congreso 25-S").
Mas, diferente daquela vez e das anteriores manifestações, o número de
assistentes e grupos sociais que acudiram foi muito reduzido e o protesto teve
pouca repercussão midiática, a exceção dos feridos, detenções e das imagens de
violência dos manifestantes e dos policiais (1).
Por que desta
vez o protesto não foi apoiado pelo povo? Será que os espanhóis perderam a
vontade de continuar a luta contra a corrupção, a pobreza e o enriquecimento
das elites durante a crise? Será que já não temos expectativas de mudar as
coisas? O protesto foi planejado para começar às 17h da tarde e continuar
indefinidamente até a "liberação do Congresso e o início de uma nova
transição política", mas começou duas horas mais tarde pela falta de
público e foi cancelado às 22h pela mesma organização que chamou o protesto de
causa da "falta de forças suficientes e pelo insuficiente apoio
social".
Minha
resposta é: para que o povo lute, precisa entender e compartilhar os motivos e
modos de luta propostos. Os motivos são claramente entendidos e compartilhados,
de ai que todas as semanas qualquer turista assista com surpresa a
manifestações nas ruas de Madrid. Mas os modos de luta propostos para a última
manifestação não são compartilhados pela maioria de nós.
Foi o grupo
Plataforma En Pie quem fez a convocatória e deu o nome do protesto: Cerco ao
Congresso. Na convocatória, e no blog deles, pode-se perceber que a forma de
entender a luta cidadã é totalmente diferente aos demais grupos sociais que
dirigiram os protestos nos últimos anos (15M, Democracia Real Ya!, Jovenes sin
futuro, PAH, etc). Eles acham que o protesto pacífico não é o único jeito de
fazer reclamo e mudar as coisas. Apoiam o uso da defesa ativa (reagir com
violência cidadã a violência policial/estatal). Ela foi a causa da falta do
apoio social (2).
(abaixo,
tradução de parte da convocatória do protesto feita pela Plataforma En Pie (3))
"Ação principal: assédio e liberação definitiva do Congresso
dos Deputados.
Ações secundarias: ações livres de dispersão que afetem ao poder estabelecido (sempre
dentro do marco dos direitos humanos).
Objetivo: A caída do regime (renuncia do Governo, dissolução das Cortes e do
Chefe do Estado), e abertura a um processo de transição a um novo modelo de
organização política, econômica e social, verdadeiramente justo e solidário."
(mais um texto
do blog Plataforma en Pie em 7 de Dezembro de 2012, após o protesto do 25S em
frente as portas do Congresso (4))
"Ocupa, queima, assedia... que o chame como quiserem, o Congresso será
para o povo ou não será.
A água só queima a 100ºC, esquentar só até 99ºC não serve, nos
preparemos e quando for o momento o poremos em 100% da nossa coragem, da nossa
raiva, da nossa força..."
Claramente,
as atitudes desse grupo são mais... ativas do que simplesmente gritar nas ruas,
apontar as culpáveis do nosso empobrecimento, proporcionar alternativas, e
esperar as próximas eleições.
Eles querem
a mudança agora, e como eles quiserem.
A história de
povo espanhol está cheia de conflitos e violência. Golpes de estado militares,
rebeliões populares, assassinatos religiosos, radicalização dos movimentos
sociais, repressão... Afortunadamente, os tempos mudaram (um pouco só) e a
maior parte dos que hoje ficamos nas ruas fazendo protesto, é pacífica (não
quer dizer pacifistas). Entendemos que não é momento nem o lugar de nos voltar
violentos. Ainda não. A imposição, de um lado ou do outro, só gera mais
sofrimento. Temos presente a necessidade de mudar as coisas, mas não queremos
acelerar as mudanças de esse jeito.
Embora a
chamada a violência nessa quinta não foi seguida pelo povo, dá medo. Foi a
primeira vez que aconteceu uma chamada daquele tipo desde que começou a crise e
as manifestações (até agora só a policia e alguns radicais foram violentos),
mais acho que não será a ultima: o povo está sofrendo muito ao mesmo tempo em
que os casos de corrupção e desigualdade crescem; os políticos não estão
atendendo aos protestos pacíficos e, além disso, mandam a policia reprimi-los
duramente... tudo isso pode levar as coisas a voltarem mais radicais e
violentas nos próximos tempos.

