Há que voltar ao final da ditadura para encontrar uma quebra tão grande entre a Espanha real e a Espanha oficial como a mostrada agora na recente encosta do CIS (Centro de Investigações Sociológicas da Espanha), assim como outras feitas no final de 2012. Uma quebra que cresce igual ao desafeto pela classe política que, misteriosamente, finge não perceber, ou quando percebe, fala de planos da Secretaria Geral Técnica, ou publica o BOE (Boletim Oficial do Estado) para se enfrentar uma crise política com maiúsculas. O mesmo acontece com a Monarquia, muito afastada no fundo e na forma das novas gerações de cidadãos que não viveram a Transição democrática. Entretanto, os pobres cidadãos já não acreditam no discurso oficialista, nem nas entrevistas oficialistas (foi mínima a reação frente a recente entrevista do jornalista Jesús Hermida com o Rei Juan Carlos), nem aos médios oficialistas, com a dúvida de se tirar as ruas ou ao exílio. Um panorama desolador. Como temos chegado até aqui? E mais importante, como vamos sair?
Quanto ao primeiro, as causas desta separação entre a Espanha oficial e a Espanha real são muito variadas, mas poderíamos resumir assim: enquanto a Espanha oficial vive com a “cabeça no céu”, isolada no planeta político, mediático e empresarial que suaviza o barulho que chega da Espanha real, se ocultando aos nossos olhos para defender seus interesses, a Espanha real vive cada vez pior e não só economicamente. A Espanha oficial parece destinada –como bem explica o professor Luis Garicano- a um processo crescente de “peronização” muito preocupante, onde se mistura a defesa forte dos interesses próprios da partitocracia (confundidos interesadamente com a defesa do público) com a crescente confusão entre o privado e o público, levando a uma inevitável corrupção que esse modelo gera. É bom lembrar que há estudos que falam da correlação positiva entre o incremento da presença de políticos em empresas e a corrupção num país.
Nesse processo se trocam todo tipo de favores: desde os normativos até os econômicos, passando pelas colocações de políticos e ex-políticos, alguns deles com trajetórias que dão medo em qualquer país sério. Mesmo assim, esta situação impede que na Espanha oficial perceba com claridade a realidade, que se identifiquem corretamente os problemas e, logicamente, que possam se resolver. Talvez o caso mais surpreendente seja a posição do Governo central a respeito da situação em Catalunha, um problema político de grande magnitude que se tenta resolver como se fosse um problema comum de natureza jurídica… há muitos outros exemplos. Nesse contexto, os espanhóis dão pé, a Espanha real que sofre a crise econômica, política e moral nas suas peles, fica surpreendida e indignada. Se sente, logicamente, enganada. Como num jogo de magia, olham como estão desaparecendo não só os produtos conseguidos após muitos anos de esforço e trabalho, mas também a confiança que depositaram na democracia e em seus valores. Valores como a igualdade de oportunidade, essência da meritocracia que foi ensinada a maioria (certamente, ao menos, duas ou três gerações de espanhóis). Assim, aqueles que fossem educados na confiança de que o estudo, o esforço, o trabalho, a honestidade, a competência, a capacidade, o mérito, o talento, seriam as chaves para conseguir uma melhora das condições da vida e também as chaves para o êxito e prestigio laboral, não entendem nada. As chaves do êxito agora parecem ser outras. Nestes tempos importa mais quem você conhece em vez do que você conhece ou sabe fazer. Na Espanha de 2013, melhora (ou sobrevive) mais facilmente quem fez carreira num partido político, ou perto de um cargo público, ou se é familiar de alguém importante, ou se tem responsabilidade pública para fazer favores e depois cobrá-los… As regras de algumas empresas importantes do Ibex (mercado financeiro espanhol) não parecem muito diferentes, verdadeiramente.
O mais grave, é que os espanhóis também se sentem enganados por que há outros valores inerentes à democracia, como a igualdade de todos perante a lei, ou a obrigação dos representantes de mostrar claridade em seus atos, que não estão sendo respeitados. Na Espanha não é verdade que a lei é igual para todos. Não é preciso dar exemplos concretos, numa democracia onde pode coexistir uma grande quantidade de cargos públicos imputados pela Justiça, condenados por crimes contra as Administrações Públicas são perdoados, não se cumprem as sentenças do Tribunal Supremo quando os políticos não gostam delas, trocam-se as leis quando uma pessoa poderosa precisa, a transparência provoca medo nos políticos… tudo isso deixa claro em que país estamos. (…)
Acho que essas são algumas das bases da divergência entre a Espanha real e a Espanha oficial, não sendo a primeira vez que se produzem. (…)
As coisas que a gente pode fazer foram explicadas pelo magnífico escritor Javier Marías. Ele acreditava que a Espanha real tem muito mais força, valor e sentido comum que a versão oficial. Por isso, se em vez de esperar a solução da Espanha oficial para nossos problemas, por que não tentamos procurar o remédio? Podemos fazer e dizer muitas coisas daqui até as próximas eleições ou até a próxima enquete que não permita à Espanha oficial continuar ignorando a Espanha real.
Difícil? Sem dúvida, mas temos que fazer um esforço de imaginação, vontade, atividade. Temos que, sem pensar o preço a pagar ou o desconforto, fazer do espaço público (isso é importante) o que achamos correto, e não conveniente. No trabalho, na Administração, nos fóruns, na rua. E temos que falar a verdade, mesmo que aos políticos, especialmente a eles.
(…) Não vai funcionar? Tentem primeiro e depois vejam se funciona ou não. Definitivamente, não deixemos que a Espanha oficial fale que ela é a Espanha real.
Elisa de la Nuez (advogada do Estado), 14-01-2013
Quanto ao primeiro, as causas desta separação entre a Espanha oficial e a Espanha real são muito variadas, mas poderíamos resumir assim: enquanto a Espanha oficial vive com a “cabeça no céu”, isolada no planeta político, mediático e empresarial que suaviza o barulho que chega da Espanha real, se ocultando aos nossos olhos para defender seus interesses, a Espanha real vive cada vez pior e não só economicamente. A Espanha oficial parece destinada –como bem explica o professor Luis Garicano- a um processo crescente de “peronização” muito preocupante, onde se mistura a defesa forte dos interesses próprios da partitocracia (confundidos interesadamente com a defesa do público) com a crescente confusão entre o privado e o público, levando a uma inevitável corrupção que esse modelo gera. É bom lembrar que há estudos que falam da correlação positiva entre o incremento da presença de políticos em empresas e a corrupção num país.
Nesse processo se trocam todo tipo de favores: desde os normativos até os econômicos, passando pelas colocações de políticos e ex-políticos, alguns deles com trajetórias que dão medo em qualquer país sério. Mesmo assim, esta situação impede que na Espanha oficial perceba com claridade a realidade, que se identifiquem corretamente os problemas e, logicamente, que possam se resolver. Talvez o caso mais surpreendente seja a posição do Governo central a respeito da situação em Catalunha, um problema político de grande magnitude que se tenta resolver como se fosse um problema comum de natureza jurídica… há muitos outros exemplos. Nesse contexto, os espanhóis dão pé, a Espanha real que sofre a crise econômica, política e moral nas suas peles, fica surpreendida e indignada. Se sente, logicamente, enganada. Como num jogo de magia, olham como estão desaparecendo não só os produtos conseguidos após muitos anos de esforço e trabalho, mas também a confiança que depositaram na democracia e em seus valores. Valores como a igualdade de oportunidade, essência da meritocracia que foi ensinada a maioria (certamente, ao menos, duas ou três gerações de espanhóis). Assim, aqueles que fossem educados na confiança de que o estudo, o esforço, o trabalho, a honestidade, a competência, a capacidade, o mérito, o talento, seriam as chaves para conseguir uma melhora das condições da vida e também as chaves para o êxito e prestigio laboral, não entendem nada. As chaves do êxito agora parecem ser outras. Nestes tempos importa mais quem você conhece em vez do que você conhece ou sabe fazer. Na Espanha de 2013, melhora (ou sobrevive) mais facilmente quem fez carreira num partido político, ou perto de um cargo público, ou se é familiar de alguém importante, ou se tem responsabilidade pública para fazer favores e depois cobrá-los… As regras de algumas empresas importantes do Ibex (mercado financeiro espanhol) não parecem muito diferentes, verdadeiramente.
O mais grave, é que os espanhóis também se sentem enganados por que há outros valores inerentes à democracia, como a igualdade de todos perante a lei, ou a obrigação dos representantes de mostrar claridade em seus atos, que não estão sendo respeitados. Na Espanha não é verdade que a lei é igual para todos. Não é preciso dar exemplos concretos, numa democracia onde pode coexistir uma grande quantidade de cargos públicos imputados pela Justiça, condenados por crimes contra as Administrações Públicas são perdoados, não se cumprem as sentenças do Tribunal Supremo quando os políticos não gostam delas, trocam-se as leis quando uma pessoa poderosa precisa, a transparência provoca medo nos políticos… tudo isso deixa claro em que país estamos. (…)
Acho que essas são algumas das bases da divergência entre a Espanha real e a Espanha oficial, não sendo a primeira vez que se produzem. (…)
As coisas que a gente pode fazer foram explicadas pelo magnífico escritor Javier Marías. Ele acreditava que a Espanha real tem muito mais força, valor e sentido comum que a versão oficial. Por isso, se em vez de esperar a solução da Espanha oficial para nossos problemas, por que não tentamos procurar o remédio? Podemos fazer e dizer muitas coisas daqui até as próximas eleições ou até a próxima enquete que não permita à Espanha oficial continuar ignorando a Espanha real.
Difícil? Sem dúvida, mas temos que fazer um esforço de imaginação, vontade, atividade. Temos que, sem pensar o preço a pagar ou o desconforto, fazer do espaço público (isso é importante) o que achamos correto, e não conveniente. No trabalho, na Administração, nos fóruns, na rua. E temos que falar a verdade, mesmo que aos políticos, especialmente a eles.
(…) Não vai funcionar? Tentem primeiro e depois vejam se funciona ou não. Definitivamente, não deixemos que a Espanha oficial fale que ela é a Espanha real.
Elisa de la Nuez (advogada do Estado), 14-01-2013

