domingo, 24 de febrero de 2013

A criação do Banco Ruim I


Atualmente, na Espanha, estamos vivendo as consequências negativas da bolha imobiliária, durante a qual se construíram, entre 2002 e 2007, mais casas do que na França e Alemanha juntas (as duas com o dobro da população e o triplo do território da Espanha). Esse processo de construção descontrolada permitiu grandes benefícios econômicos ao setor da construção imobiliária, que, aliada aos poderes políticos locais, usaram os mecanismos de reclassificação e requalificação do terreno para adicionar mais zeros a seus lucros. O período é conhecido como "boom
urbanístico".

Nesse processo, não só se utilizou dinheiro das companhias, mas também dinheiro emprestado. Assim, durante todos esses anos, a economia espanhola viu como seu endividamento privado disparou ao ritmo do crescimento. As grandes empresas da construção aumentavam suas dívidas para iniciar mais construções, bem como as famílias (especialmente as ricas para logo revender a maior preço) multiplicando seu endividamento para comprar muitas moradias e poder participar da orgia especulativa. O acesso à União Européia tinha desmantelado o setor industrial e agrário espanhol, assim que o binômio construção-imobiliárias se converteu em motor de crescimento e criação de emprego. Quando a batata quente explodiu e já ninguém mais queria comprar vivendas, tudo acabou. As construtoras tiveram que fechar e tirar milhares de trabalhadores, sendo que seus ativos (moradias, terreno, empréstimos, etc) passaram a fazer parte dos bancos e caixas, quando não puderam pagar suas dívidas.
A situação se agravou porque aqueles bancos e caixas tinham, ao mesmo tempo, dívidas com bancos estrangeiros. Além disso, as vivendas, terreno construível e outros ativos já não tem o mesmo preço que antes. Algumas/os, já não valem nada. Assim, muitos bancos tiveram e tem que ser resgatados com dinheiro público, ou seja, todos nós, para fazer frente a suas dividas (já sabe, o beneficio sempre é privado, a dívida é pública). O problema veio quando não tínhamos dinheiro suficiente para resgatar aos nossos bancos avaros. Pedimos ajuda ao BCE (Banco Central Europeu), e ele aceitou resgatar, mas com fortes condições econômicas para nós. Uma delas é a criação do "banco ruim".
Para falar do "Banco Ruim", primeiro precisamos conhecer a situação atual dos nossos bancos, pois hoje alguém pode escutar que os bancos espanhóis têm problemas, ao mesmo tempo que na mídia aparecem seus elevados lucros econômicos durante os anos de crise. Concretamente, segundo a Associação Espanhola de Banca (AEB), os bancos espanhóis conseguíram benefícios de 22.400 mill € em 2008, 14.943 mill € em 2009, e 15.000 mill € em 2010. Como é possível?
Os lucros de uma empresa se calculam sob papel, somando todos os ingressos e tirando todos os gastos. Mas essas cifras podem ser manipular de formas diferentes, de maneira que se pode influir no resultado das contas (normalmente não por muito tempo, a verdade sempre chega). 
O caso dos bancos é surpreendente. Eles possuem uma quantidade elevada de ativos tóxicos: título que o banco possui com um determinado valor, embora seu valor verdadeiro seja muito mais baixo, ou nulo. Um exemplo: um empréstimo que um banco realizou a uma companhia imobiliária, e que não pode recuperar devido à insolvência da companhia. Nas contas do banco aparece que ele vai recuperar o empréstimo inicial, 10.000 € por exemplo, e portanto aparece como riqueza que tem (vai ter). Mas, se a companhia não pode pagar sua dívida, o banco só tem esse dinheiro sob papel. Em teoria vai recuperá-lo algum dia, mas na realidade nunca vai.

viernes, 25 de enero de 2013

Artículo duma advogada do Estado

Há que voltar ao final da ditadura para encontrar uma quebra tão grande entre a Espanha real e a Espanha oficial como a mostrada agora na recente encosta do CIS (Centro de Investigações Sociológicas da Espanha), assim como outras feitas no final de 2012. Uma quebra que cresce igual ao desafeto pela classe política que, misteriosamente, finge não perceber, ou quando percebe, fala de planos da Secretaria Geral Técnica, ou publica o BOE (Boletim Oficial do Estado) para se enfrentar uma crise política com maiúsculas. O mesmo acontece com a Monarquia, muito afastada no fundo e na forma das novas gerações de cidadãos que não viveram a Transição democrática. Entretanto, os pobres cidadãos já não acreditam no discurso oficialista, nem nas entrevistas oficialistas (foi mínima a reação frente a recente entrevista do jornalista Jesús Hermida com o Rei Juan Carlos), nem aos médios oficialistas, com a dúvida de se tirar as ruas ou ao exílio. Um panorama desolador. Como temos chegado até aqui? E mais importante, como vamos sair? 
Quanto ao primeiro, as causas desta separação entre a Espanha oficial e a Espanha real são muito variadas, mas poderíamos resumir assim: enquanto a Espanha oficial vive com a “cabeça no céu”, isolada no planeta político, mediático e empresarial que suaviza o barulho que chega da Espanha real, se ocultando aos nossos olhos para defender seus interesses, a Espanha real vive cada vez pior e não só economicamente. A Espanha oficial parece destinada –como bem explica o professor Luis Garicano- a um processo crescente de “peronização” muito preocupante, onde se mistura a defesa forte dos interesses próprios da partitocracia (confundidos interesadamente com a defesa do público) com a crescente confusão entre o privado e o público, levando a uma inevitável corrupção que esse modelo gera. É bom lembrar que há estudos que falam da correlação positiva entre o incremento da presença de políticos em empresas e a corrupção num país.

Nesse processo se trocam todo tipo de favores: desde os normativos até os econômicos, passando pelas colocações de políticos e ex-políticos, alguns deles com trajetórias que dão medo em qualquer país sério. Mesmo assim, esta situação impede que na Espanha oficial perceba com claridade a realidade, que se identifiquem corretamente os problemas e, logicamente, que possam se resolver. Talvez o caso mais surpreendente seja a posição do Governo central a respeito da situação em Catalunha, um problema político de grande magnitude que se tenta resolver como se fosse um problema comum de natureza jurídica… há muitos outros exemplos. Nesse contexto, os espanhóis dão pé, a Espanha real que sofre a crise econômica, política e moral nas suas peles, fica surpreendida e indignada. Se sente, logicamente, enganada. Como num jogo de magia, olham como estão desaparecendo não só os produtos conseguidos após muitos anos de esforço e trabalho, mas também a confiança que depositaram na democracia e em seus valores. Valores como a igualdade de oportunidade, essência da meritocracia que foi ensinada a maioria (certamente, ao menos, duas ou três gerações de espanhóis). Assim, aqueles que fossem educados na confiança de que o estudo, o esforço, o trabalho, a honestidade, a competência, a capacidade, o mérito, o talento, seriam as chaves para conseguir uma melhora das condições da vida e também as chaves para o êxito e prestigio laboral, não entendem nada. As chaves do êxito agora parecem ser outras. Nestes tempos importa mais quem você conhece em vez do que você conhece ou sabe fazer. Na Espanha de 2013, melhora (ou sobrevive) mais facilmente quem fez carreira num partido político, ou perto de um cargo público, ou se é familiar de alguém importante, ou se tem responsabilidade pública para fazer favores e depois cobrá-los… As regras de algumas empresas importantes do Ibex (mercado financeiro espanhol) não parecem muito diferentes, verdadeiramente.

O mais grave, é que os espanhóis também se sentem enganados por que há outros valores inerentes à democracia, como a igualdade de todos perante a lei, ou a obrigação dos representantes de mostrar claridade em seus atos, que não estão sendo respeitados. Na Espanha não é verdade que a lei é igual para todos. Não é preciso dar exemplos concretos, numa democracia onde pode coexistir uma grande quantidade de cargos públicos imputados pela Justiça, condenados por crimes contra as Administrações Públicas são perdoados, não se cumprem as sentenças do Tribunal Supremo quando os políticos não gostam delas, trocam-se as leis quando uma pessoa poderosa precisa, a transparência provoca medo nos políticos… tudo isso deixa claro em que país estamos. (…)

Acho que essas são algumas das bases da divergência entre a Espanha real e a Espanha oficial, não sendo a primeira vez que se produzem. (…)

As coisas que a gente pode fazer foram explicadas pelo magnífico escritor Javier Marías. Ele acreditava que a Espanha real tem muito mais força, valor e sentido comum que a versão oficial. Por isso, se em vez de esperar a solução da Espanha oficial para nossos problemas, por que não tentamos procurar o remédio? Podemos fazer e dizer muitas coisas daqui até as próximas eleições ou até a próxima enquete que não permita à Espanha oficial continuar ignorando a Espanha real.

Difícil? Sem dúvida, mas temos que fazer um esforço de imaginação, vontade, atividade. Temos que, sem pensar o preço a pagar ou o desconforto, fazer do espaço público (isso é importante) o que achamos correto, e não conveniente. No trabalho, na Administração, nos fóruns, na rua. E temos que falar a verdade, mesmo que aos políticos, especialmente a eles.

(…) Não vai funcionar? Tentem primeiro e depois vejam se funciona ou não. Definitivamente, não deixemos que a Espanha oficial fale que ela é a Espanha real.

Elisa de la Nuez (advogada do Estado), 14-01-2013

miércoles, 16 de enero de 2013

ETA



O sabado houve uma manifestação em favor dos presos da ETA. Concretamente, o manifesto da concentração cidadã pede a aproximação dos presos da banda terrorista à região do Pais Basco, a liberação dos presos com doenças terminais e daqueles que já têm cumpridos 3/4 partes da pena. As reivindicações que fazem seguem a legislatura espanhola. Antes de dar a minha opinião sob esse manifesto e suas reivindicações, acho justo dar a conhecer da maneira mais neutra que encontrei na web, o que é ETA:
ETA quer dizer Euskadi Ta Askatasuna, expressão em língua basca (euskera) traduzida como Pais Basco e Liberdade. Uma organização terrorista basca que se proclama independentista, socialista e revolucionaria.
Tem como objetivos prioritários a independência do Euskal Herria, território que abarca a atual região do Pais Basco e terrenos vizinhos, na França e no resto do território espanhol. Para isso, ETA utiliza o assassinato, sequestro, terrorismo e extorsão econômica na Espanha e, ocasionalmente, na França. Tudo isso é parte da sua "luta armada".
Foi fundada em 1958 durante a ditadura de Franco. Após a expulsão dos membros das juventudes do Partido Nacionalista Vasco, ETA cometeu sua primeira ação violenta (julho-1961).
Inicialmente, a ação foi apoiada por parte da população espanhola ao ser considerada mais uma organização oposta ao regime militar. Não formou parte do processo democratizador iniciado em 1977 e começou perder apoio popular, tendo seus atos condenados e considerados terroristas pela imensa maioria das forças políticas e sociais. Sua condição de grupo terrorista é admitida por numerosos estados e organizações internacionais como França, Inglaterra, EUA, ONU, OEA, UE... A Anistia Internacional tem condenados repetidas vezes as ações da ETA, sendo consideradas como crimes ou graves abusos contra os direitos humanos, mas também critica a política antiterrorista do governo espanhol como o regime de “incomunicação” aplicado aos etarras, final isso possibilita o maltrato ou tortura dos presos.
Desde 2002, os partidos políticos nacionalistas bascos como Batasuna, Ação Nacionalista Basca e Partido Comunista das Terras Bascas foram ilegalizados pela sua vinculação com a ETA após as reformas legislativas adotadas pelas Cortes Generais a proposta do governo de Jose María Aznar (membro do Partido Popular - PP).
Desde o Pacto de Estella, em 1998, houve uma série de pactos da ETA com diversas forças políticas, além de inúmeras tréguas e períodos de paz, parciais. Em 20 de Outubro de 2011 o grupo terrorista anunciou o fim definitivo da sua atividade armada, embora o grupo ainda mantenha atividade e não tenha feito a entrega das armas, nem pedido perdão às vitimas.
Alguns dados numéricos da banda terrorista:
·         10: numero de vezes que a ETA anunciou o fim da ação violenta. A única anunciada "unilateralmente e indefinida" foi em 18 de Setembro de 1998 e acabou 14 meses depois.

·         21: o número de mortos no seu atentado mais violento: uma bomba em um shopping em Barcelona em 19 de Junho de 1977.

·         38: anos desde o primeiro assassinato (em 1968) e fim da violência anunciada em 2011

·         48: o número de anos desde a sua fundação (1959)

·         77: o número de sequestros realizados pela ETA.

·         80: as mulheres membros de ETA atualmente encarceradas na Espanha.

·         99: as vítimas assassinadas pela banda terrorista no seu ano mais sangrento, 1980.

·         547: os mortos no País Basco, a região com maior número de vítimas desde que ETA começou matar; segunda, com 121 é Madrid, e a terceira, com 55, Cataluña.

·         659: o número de presos de ETA nas prisões da Espanha, França e México, segundo dados da Agencia Basco Press; deles, 499 estão na Espanha. O Ministério do Interior eleva essa última cifra a 544.

·         817: o número total de vítimas da organização terrorista; delas, 339 foram civis, 198 Guardas Civis (como a Policia Militar no Brasil) e 145 policiais.

·         1.000: o número estimado de militantes ativos que a ETA teve em seu auge.

·         9.000-12.000 milhões de  €: o dano econômico que o grupo tem causado ao País Basco, segundo o juiz Mikel Buesa, professor da Universidade Complutense, e Baltasar Garzón, ex-juiz da Audiência Nacional.

martes, 18 de diciembre de 2012



Sempre me foi difícil entender a tendência de alguns jornalistas e intelectuais a rejeitar em bloco as propostas de um líder político que não gostam, mesmo que alguma das suas propostas tenham boas razões. Assim aconteceu frequentemente durante o Governo do PSOE (Partido Socialista Obrero Espanhol) de Zapatero (ex-Presidente espanhol, anterior ao atual presidente Rajoy). Como muitos não gostavam da sua postura frente a ETA (grupo terrorista da região norte da Espanha), frente aos nacionalismos de certas regiões, e/ou sua persistente ignorância da crise econômica, rejeitavam com igual indiferença qualquer das suas medidas, por exemplo a nova matéria educativa que criou, Educação Para a Cidadania. De modo que era fácil olhar como alguns ateus reclamavam junto com os bispos frente a uma matéria tão lógica... só para aborrecer o presidente. Agora acontece algo parecido, embora o signo político seja o oposto, com as iniciativas que defende o ministro da educação, senhor Wert (Governo de Rajoy, PP, Partido Popular, partido político de direita). Como a grande parte das suas propostas de reforma educativa aponta claramente em favor da educação concertada (escola de gestão privada, mas paga com dinheiro público), aos centros que querem separar os sexos nas aulas e gostam de matérias de estudos com interesses eclesiásticos (suprimindo assim a "sofrida" Educação Para a Cidadania), quem não aceita tais medidas rejeita também o resto delas, incluindo a proteção do Espanhol como língua veicular lá onde atualmente não é respeitada (regiões com governos nacionalistas, que impõem as línguas regionais à comum).


Mas garantir o uso do espanhol como língua veicular do ensinamento junto com as outras línguas regionais oficiais (galego/gallego na Galiza/Galicia, catalá/catalán na Catalunya/Cataluña, euskera/vasco no Euskadi/País vasco, por exemplo) é algo perfeitamente adequado e que vem a cumprir - enfim!- as repetidas sentenças judiciais tanto do Tribunal Supremo como do Tribunal Constitucional. E, com certeza, não é de jeito nenhum uma medida da ultradireita, como alguns nacionalistas falam. Pelo contrario, foi Franco (o ditador militar fascista que governou a Espanha de 1940 até 1975, após uma guerra civil de 3 anos iniciada por ele e seu exército) quem obrigou o uso do Espanhol em exclusividade e eliminou o resto das línguas do país fora do sistema educativo em nome da coesão do território e para não dividir a comunidade. É o mesmo que hoje fala o Governo da Cataluña, nacionalista e oposto a que o Espanhol seja também língua veicular na Cataluña. A proposta de Wert, enquanto nos referimos ao Espanhol como língua veicular e não o resto de coisas, é um bom passo para corrigir esta exceção dentro da União Europeia: que exista um país, Espanha, onde seja praticamente impossível estudar na língua majoritária e oficial em zonas importantes do território nacional.


Em Cataluña os nacionalistas acostumam a falar coisas catastróficas e incríveis a respeito da sua relação com o Governo Espanhol. Assim, depois de denunciar a espoliação econômica do resto de Estado contra eles (mesmo que seja junto com Madrid a comunidade mais rica do país), agora proclama-se que a língua catalana está sendo atacada fortemente. De fato, nacionalistas de outras regiões (País Vasco, Galicia) se solidarizam com as "vítimas" de tão injusta perseguição. Surpreende assistir como aqueles protestos nacionalistas contra a língua espanhola tem semelhança com os protestos da Igreja contra a educação laica. Nacionalismos que, ao mesmo tempo, tem origem clerical:
Quando a Igreja perde exclusividade dos seus privilégios e baixa ao mesmo plano que outras crenças, rapidamente fala de terrível persecução contra ela. Os sacerdotes sempre consideram que é de justiça ter um trato favorecido, e que o caso contrário, só pode ser uma agressão. É o mesmo modo que tem os nacionalistas de ontem e hoje para se sentir atacados quando a sua língua recebe o mesmo trato que as demais, especialmente, se é a língua que se fala em todo o país e, portanto, vincula-se a ele. O único direito que ainda não conseguiram é o direito de proibir, mas isso lhes parece intolerável...


Os nacionalistas acham que são as línguas mesmas que têm direitos, e não seus falantes. Por tanto, gostam de repetir como um argumento que, no final do ensinamento obrigatório, os alunos, ainda que não tivessem estudado em Espanhol, acabam conhecendo a língua majoritária com tanta claridade quanto os alunos ensinados com ela. Isso não é tão certo, mas ok: por muito independente que seja a Irlanda, o gaélico nunca vai fazer os irlandeses esquecerem o Inglês (a comparação não é muito apropriada, porque o gaélico foi proibido durante mais de 100 anos, o catalan só durante a ditadura, mas é o caso mais perto). Mas o debate não é esse, o debate é o direito das pessoas que estudam em Cataluña, País Vasco ou qualquer outra região com governo nacionalista de poder se educar em Espanhol se assim quiser: não estamos questionando o conhecimento do Espanhol ao final dos seus estudos, estamos defendendo o direito a ter aulas nessa língua. É uma forma de laicismo linguístico, que como outros laicismos choca com os intransigentes que não aceitam ter um direito, querem mudá-lo em obrigação para o resto.

Texto de Fernando Savater, escritor, filosofo e político no partido UPyD

lunes, 29 de octubre de 2012

Eleições catalás e nacionalismo catalá

Em alguns meses teremos eleições na Cataluña (em português Catalunha, em catalá Catalunya).


Como muitos já sabem, a Espanha é dividida em 17 Comunidades Autônomas (CCAA) como Andalucía, Catalunha, Madrid, País Vasco (Euskadi em vasco)... e nelas, as diferentes províncias, que contêm as prefeituras/cidades respectivas. Por exemplo, e para continuar com o exemplo da Catalunha, ela é uma comunidade autônoma, com as províncias de Girona (Gerona em catalão), Lérida (Lleida em catalão), Barcelona e Tarragona.

Catalunha, junto com a comunidade autônoma do País Vasco, é famosa por sua tradição nacionalista que agora, no meio da crise econômica e perto das eleições autonômicas, expressa sua versão mais independentista.

Entendemos como nacionalismo aquela corrente ideológica que sobrevaloriza as coisas própias do território/sociedade frente as coisas de outros territórios/sociedades. Assim, o nacionalismo alemão da época nazi, achava superiores os alemães frente a outros cidadãos europeus; o nacionalismo espanhol da ditadura não permitia a expressão de outra cultura que não fosse a espanhola (limitada por seus critérios); e o nacionalismo chinês invadiu o Tibet em nome da união social chinesa.

Os políticos nacionalistas, sejam de onde sejam, são um tipo de masturbadores profissionais da sociedade, que conseguem expandir a ideia de que o cara de dentro faz o bem, o cara de fora, faz o mal. Exemplos de argumentos nacionalistas: "A divida do governo autonômico da Catalunha com a administração estatal não é culpa do malgasto de dinheiro da administração autonômica, é culpa do estado Espanhol que exige demais a sociedade catalã", "A crise não foi por culpa da corrupção e banca espanhola, foi culpa do capitalismo internacional"; "Os serviços públicos não conseguem responder a demanda pública porque há muitos imigrantes folgados". Assim, o cidadão acredita que ele não tem culpa dos problemas, ele é bom, e que a culpa é dos caras de fora. Que o politico nacionalista defendera seus interesses sem prejudicar seus privilégios, porque ele é de seu grupo (catalão/espanhol). Assim, todos estão felizes. Viva o nacionalismo-masturbador!!

No caso da Catalunha e do Pais Vasco, a corrente nacionalista não começou ontem, mas sim é claro que os políticos nacionalistas estão aproveitando a crise atual para convencer a população que a única via para sair da crise é a independência. Quer dizer, mais poder para eles é o mesmo para os cidadãos. Os outros argumentos das comunidades nacionalistas são:

-Econômicos: Na Espanha, as CCAA mais ricas pagam mais ao estado central que as CCAA mais pobres, com a intenção de igualar a condição e oportunidade das pessoas no pais inteiro (exemplo: Madrid, Catalunha pagam mais proporcionalmente que Extremadura ou Andalucía). Bom, o Pais Vasco (outra CCAA rica) não paga o mesmo que as demais CCAA ricas porque tem uma lei autonômica especial. A Catalunha quer o mesmo privilegio, especialmente agora que tem uma forte divida com a Administração estatal. Como não conseguiu, fala de injustiça da Administração estatal para com a Catalunha (com certeza sua divida não tem que ver com sua corrupção, malgasto em embaixadas no estrangeiro, ou salários maiores para os funcionários catalões... ironia) , e o partido que governa (maioritário) propõe a independência. Nao quer participar do esforço por gerar igualdade social na Espanha. Considera que isso perjudica aos catalaes (sem importar as demais CCAA) e nao por isso nao vale a pena.

-Culturais: Falam das diferenças culturais como argumento para se independizar (é bom saber que na Espanha existem tantas culturas como regiões, e isso não é um problema na nossa convivência). Mesmo assim, querem que seus traços culturais, como a língua, fiquem por cima dos que temos em comum (exemplo: as aulas sejam em catalão e não em espanhol, embora há crianças de outras CCAA).

-Históricas: são os argumentos que mais me doem. Dizem ser as maiores vitimas da Guerra Civil, ditadura, e outros acontecimentos terríveis da Espanha. Como se os resto das CCAA não tivessem vítimas e dores nesses conflitos. Falam da repressão cultural nos seus territórios na ditadura, sem falar do apoio econômico que tiveram cidades como Barcelona e Bilbao. No entanto o governo da ditadura esquecia das CCAA que hoje são as mais pobres, fazendo sua população migrar para territórios Catalães, Vascos ou Madrilenhos em busca de emprego. 


Eu sou madrilenho, espanhol, europeu, e acima de tudo, cidadão do mundo. Não escolhi onde nascer e, por isso, os argumentos nacionalistas me parecem absurdos. Acho bom que as pessoas defendam sua cultura e direitos, mas não quando o fim delas é ter privilégios sobre outros, como acontece na Espanha. Pessoalmente, me considero uma pessoa de esquerda, e por isso que o argumento nacionalista espanhol que ataca o nacionalismo vasco e catalão, chamando a união espanhola frente aos movimentos independentistas, me importam pouco.

Talvez seja o primeiro madrilenho a dizer isso, mas eu quero a Catalunha e o Pais Vasco independentes (quero dizer, se seus cidadãos quiserem, não quero nenhum tipo de limitação por parte do estado central). Não quero ter Comunidades Autônomas vizinhas que querem privilégios frente às demais CCAA. Para isso, melhor não ser parte do mesmo pais.

domingo, 7 de octubre de 2012

Protestos do 25, 26, e 29 de setembro





Depois das manifestações acontecidas nos dias 25, 26 e 29 de setembro são muitos os vídeos no youtube que alguém pode encontrar para assistir diretamente aos fatos nesses atos.

Para esclarecer um pouco o contexto dos protestos, é preciso falar que o primeiro deles, no dia 25, foi convocado pela plataforma cidadã Coordenadora 25S. Ela é um grupo surgido da plataforma 15M (outro dia falarei dela) para organizar essa manifestação. O objetivo era rodear o Congresso dos deputados nacionais, para pedir a demissão do presidente da Espanha, Mariano Rajoy, pelas medidas tomadas por seu Governo ante a crise. O proclamo foi "Toma el congreso". Esse proclamo foi logo aproveitado pelas forças policiais, jornalistas de direita, e políticos do PP (Partido Popular, o partido que Governa a nação, a região de Madrid, e a cidade de Madrid) para justificar as violentas cargas da polícia, em defesa do Congresso. Mesmo que a Coordenadora 25S tivesse falado que o objetivo não era tomar o congresso literalmente, o objetivo era dar um golpe moral ao governo, reunindo o povo na Praça Neptuno. A manifestação foi tudo bem no começo: ela havia sido liberada pelo Governo da cidade de Madrid até às 21h. Como em outras manifestações organizadas pela plataforma 15M, ou grupos derivados, a maior parte das pessoas reunidas lá foram pacíficas, diversas, e ativas. Mas nunca violentos. Embora, não era difícil perceber os pequenos grupos, geralmente de adolescentes ou pessoas jovens, com vontade de começar briga com a polícia. Mesmo assim, como falei, não aconteceu nenhum problema... até às 21h.






Nesse momento, a polícia começou a carga contra o pessoal reunido lá. Eles explicaram que a carga foi originada por um grupo de radicais, que tentaram saltar a barreira policial para chegar ao Congresso. Muitos manifestantes falam que nesse grupo havia policiais infiltrados que foram os causadores da briga com os policiais da barreira, com dois objetivos: mostrar uma imagem violenta do protesto (pacifica até esse momento), e iniciar a "limpeza" da rua por parte da polícia. Pessoalmente, acho que os dois argumentos são exagerados: certo que havia grupos de jovens violentos (talvez, um total de 80 pessoas, numa concentração de mais de 8000 pessoas) mas não acho que quiseram tomar o congresso, só queriam briga com a polícia. E também não acho que foram os policiais infiltrados os que iniciaram a briga. Nos vídeos que mostram o grupo violento em confronto com a polícia, é fácil perceber as pessoas com estética típica de grupos radicais (desculpem meus preconceitos, mas já tenho experiência em manifestações, e os radicais preservam a mesma estética), as bandeiras da CNT (sindicado anarquista na Espanha; bandeiras vermelhas e pretas, ou numa mesma bandeira, as duas cores) que sempre está envolvida em protestos violentos, e pessoas provocando a polícia e tirando-lhes objetos...

O ataque da polícia foi extremamente violenta. Não só queriam pegar os radicais, queriam "limpar" a praça e as ruas. Além da violência nas ruas perto do Congresso, chegaram inclusive até a estação ferroviária de Atocha, 500m mais abaixo da Praça Neptuno onde acontecia o protesto. Na FFCC de Atocha, podia-se perceber que a intenção deles já não era "restaurar a ordem e a paz nas ruas", lá o objetivo era agredir o pessoal e prender pessoas.




 Foi por tudo isso, que no dia seguinte foi convocado outro protesto, 26S, com os mesmos motivos que o anterior, somando-se a violência policial. Não tinha autorização nenhuma por parte do governo municipal, e havia menos pessoas que no dia anterior. Mas a Praça Neptuno ficou cheia, interrompendo o trânsito, mais uma vez. Tudo correu bem, desde o começo ao fim. Só quando a maior parte dos manifestantes foram embora, perto das 23h30, a polícia iniciou confronto contra um pequeno grupo às 00h. Ignoro os motivos. No sábado, de novo o povo voltou à Praça Neptuno, contra o Governo e a violência policial. Os dados falam que havia mais gente que no primeiro dia, no 25S. Na manifestação do 29S foi tudo bem, até as 23h, quando a polícia desferiu novo ataque, deixando as ruas cheias de feridos. Manifestantes e não manifestantes.




domingo, 30 de septiembre de 2012

Welcome to the jungle meu amigo

Protesto nas ruas de Madrid contra as medidas tomadas pelo Governo ante a crise, e contra a violência policial nas ultimas manifestações. 29-Sept-2012, Praça Neptuno, 20,37h. Agencia: EFE

Faz 1 ano que voltei do meu intercâmbio no Brasil, na Universidade de São Paulo e, desde então, venho pensando em fazer um blog onde possa treinar meu Português.

Ao mesmo tempo, na minha volta encontrei meu pais envolvido em numerosas lutas sociais, algumas que aproveitam a crise atual para reivindicar seus objetivos (de origem antiga), e outras, que foram iniciadas pelas medidas tomadas pelo governo frente à crise (de origens mais recentes).

Uma semana atrás, conheci um cara paulista interessado nos motivos dos protestos nas ruas, nas greves dos trabalhadores, no conflito político de algumas regiões com o estado central (Cataluña, País Vasco, as mais destacáveis), nos casos de corrupção e das más gestões econômicas na elite política e econômica espanhola, que provocam a ira dos manifestantes.

Achei, "olha, por que não faz um blog em Português onde fale da situação atual no seu país?". E aqui estou, começando um blog que espera potenciar a relação entre Espanha e o mundo lusófono, através do debate particular, dos fatos que acontecem na Espanha nesse período de crise.

Espero seja de seu agrado,

Bastón